Em 1966, no livro A Dimensão Oculta, Edward T. Hall afirmava já que “o automóvel é o maior consumidor de espaço pessoal e público que o homem jamais inventou”. Perceber que, há cerca de 70 anos, várias vozes se levantavam já no sentido de precaver a extensão da relação de dependência entre o homem e o automóvel, faz-me pensar no quanto andamos a negligenciar estas questões durante todo este tempo.

O surgimento do automóvel modificou a forma de vida das pessoas. Se, por um lado, tornou mais fácil percorrer curtas e longas distâncias, por outro foi o motor para o crescimento das malhas urbanas em extensões tais que inviabilizou que estas pudessem ser percorridas a pé, de bicicleta ou mesmo por uma rede de transportes públicos eficaz.

Resultado desta trajetória, existe, hoje em dia, um verdadeiro síndrome do automóvel. Em Portugal, esta patologia é gritante. A possibilidade de não ser possível deixar o filho à porta da escola com o seu próprio carro, deixa a maioria dos pais em sobressalto. A ideia sequer de ir às compras sem que o carro esteja à porta do supermercado aterroriza qualquer consumidor. A hipótese de se ir ao ginásio e de seguida prolongar o exercício voltando para casa a pé, de bicicleta ou de autocarro, não passa sequer pela cabeça dos nossos ‘atletas’. Alternativas há sempre, ou quase sempre.

Enquanto isso vamos permitindo que os nossos centros urbanos se vão estrangulando pela presença excessiva de automóveis que aumentam cada vez mais o tempo investido em movimentos pendulares, impossibilitam a coexistência com outros modos de transporte e diminuam o contacto social. Não queremos andar a pé ou de bicicleta, não percorremos as ruas das nossas cidades, não conhecemos as pessoas que frequentam os mesmos caminhos ou lugares que nós. Diz Hall que “quando passeamos, aprendemos a conhecer-nos entre nós, que mais não seja de vista”, permitindo o fortalecimento das relações humanas.

Não temos que nos incompatibilizar com o uso do automóvel em meio urbano, mas antes aprender a gerir a sua utilização de forma a que, não apenas a mobilidade se torne sustentável, mas também a humanidade das relações.


Dicas de Sustentabilidade

  1. O filho do seu vizinho frequenta a mesma escola que o seu filho? Que tal combinarem levar alternadamente os miúdos à escola e aproveitar para melhorar as relações de vizinhança?!

2. Se a distância lho permitir, que tal começar a ir de bicicleta para o trabalho duas a três vezes por semana? Se calhar evitar-lhe-ia aquela aula dolorosa de cycling ao final do dia. E quem sabe mesmo uma mensalidade
poupada…

3. Vai às compras? Alforges, cestos, atrelados, são todos boas opções para o seu transporte!

(Artigo originalmente publicado na edição de março de 2017 da Revista Rua)

Marta Sofia Silva
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