A discussão não é de hoje. A discórdia também não. Mas o assunto voltou à baila, muito recentemente, a propósito do Plano Estratégico Nacional de Segurança Rodoviária – Pense 2020 – e a possibilidade de tornar obrigatório o uso do capacete por parte dos ciclistas.

A mim, individualmente, não me faz qualquer comichão a ideia de utilizar capacete. Não tenho medo que me despenteie, não tenho receio de deixar de sentir o prazer em andar de bicicleta por não sentir os cabelos ao vento. Mas a nível global, numa altura em que tanto se discutem alternativas eficazes ao automóvel, em que se repensam estratégias de mobilidade no sentido da sustentabilidade das redes viárias e de transportes, sobretudo em meio urbano, esta medida pode efetivamente representar um entrave ao avanço deste processo, no que à captação de adeptos da “mobilidade doce” diz respeito.

Vejamos o caso da Austrália, mais especificamente das cidades de Melbourne e Sydney. Duas grandes metrópoles com cerca de 5 milhões de habitantes cada, com morfologia de terreno relativamente plana e todas as infraestruturas criadas para uma utilização ótima da bicicleta – ciclovias, sinalização vertical e luminosa, estações de bike-sharing – e, no entanto, com uma taxa de utilização efetiva da bicicleta muito baixa. Foi após a implementação do uso obrigatório do capacete que se registou o maior abandono deste meio de transporte por parte dos australianos. Entre as razões apontadas para tal, o facto de os automobilistas manterem uma menor distância de segurança em relação ao que usam capacete do que aos que não o usam, contribuiu para o aumento de um sentimento de insegurança, contrariamente ao pretendido. Isto porque o uso do capacete influencia a forma como o automobilista interpreta a presença do ciclista na estrada.

Vários estudos demonstram que a utilização do capacete pode minorar o efeito das quedas no que diz respeito aos traumatismos cranianos. Outros há, no entanto, que apontam no sentido contrário, demonstrando que determinados formatos de capacetes podem contribuir para riscos de lesões do pescoço e cabeça.

Seja como for, não é o uso do capacete que está em causa, mas o direito à escolha na sua utilização. Não é a sua obrigatoriedade que resolverá os problemas de convivência na via pública, mas a promoção de hábitos saudáveis de coexistência.

*a devida ressalva à autoria da “Problemática Colocação de Um Mastro”, dos Deolinda


(Artigo originalmente publicado na edição de 21/1/2016 do Diário do Minho)

Marta Sofia Silva
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