Desde os anos 90 uma irresponsável confusão entre velocidade e fluidez foi alterando as ruas de Braga de forma a servir um único utilizador – o automóvel. Fora do centro histórico, mal temos cidade: as avenidas são uma pista de alta-velocidade, o caminho desejável dos peões foi cortado, o ambiente tornou-se suburbano e agressivo, os passeios estão vazios, as pessoas com mobilidade condicionada e as crianças só estão seguras em casa e os bracarenses passaram a ter de usar o carro para se deslocarem 500m. Não é agradável passear fora do centro e dezenas dos que ousaram utilizar a cidade como se utiliza uma cidade foram atropelados, dando a Braga um triste record.

A oposição, em particular o seu mais longo líder Ricardo Rio, apontou o dedo – e bem – à política automobilista de Mesquita Machado. Conquistado o poder de atenuar esta vergonha, a Coligação PSD-PP podia, em 3 anos, ter revolucionado a cidade. A verdade é que nem as passagens áreas pedonais foram removidas, nem os “novos” políticos dão o exemplo nas suas próprias deslocações!

Mantemos assim uma infraestrutura demasiado generosa para o automóvel – centenas de quilómetros de faixas de rodagem, dezenas de parques e milhares de lugares de estacionamento – que atrai demasiados condutores, que ocupam grande parte do nosso espaço público. O excesso de carros, além da poluição, conduz ao estacionamento abusivo que atrasa os transportes coletivos, atira os ciclistas para os passeios, afasta os peões das ruas e impede a deslocação das pessoas com mobilidade condicionada.

Imaginem que todas as semanas dávamos um passo no sentido de uma infraestrutura mais democrática: mais espaço agradável para os peões, condições para os ciclistas circularem e estacionarem em segurança, maior acessibilidade para quem tem mobilidade reduzida, percursos mais diretos e óbvios para os transportes coletivos. Até porque, como nos dizem as experiências de outras cidades, roubar espaço aos automóveis produz o fenómeno do “evaporamento do trânsito” e não o aumento dos engarrafamentos!

Cidades tão diferentes como Paris ou Pontevedra tomaram, sem medo, medidas sérias de acalmia do tráfego. Braga precisa de inverter o modelo com urgência. E de tomar medidas coerentes, redefinindo o lugar de cada utilizador no espaço público. E não são obrigatoriamente necessários meios financeiros avultados mas sim ideias e implementação rápida, com o envolvimento da comunidade no diagnóstico e identificação de soluções. Não adianta estabelecer metas a médio e longo prazo se no dia a dia nada muda!

 


(Artigo originalmente publicado na edição de 29/10/2016 do Diário do Minho)

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