O PDM de Braga aponta como um dos seus objetivos estratégicos “atingir 10% de índice modal referente ao uso da bicicleta como meio de transporte de Braga na próxima década”.

“Dezoito mil utilizadores diários de bicicleta em 2025” disse o Presidente da Câmara de Braga em Gaia – está filmado, não estou a inventar nem a sonhar.

Parece um número tão grande, tão utópico, tão distante! Mas não acho impossível, acho até que o objetivo está traçado por defeito, mas isso vai depender do que for feito no presente. Sim, no presente, porque 2025 é já ali, já só faltam 8 anos, e 8 anos passam num abrir e fechar de olhos! Mas então, como é que podemos atingir os 18 mil utilizadores diários de bicicleta, se hoje somos cerca de mil?

Bem, o primeiro passo será reduzir as velocidades de circulação do tráfego motorizado. Isto porque o lugar da bicicleta é na estrada, porque é um veículo. E àqueles que vierem dizer que as cidades foram construídas para o automóvel, esqueçam: as cidades (continuamente habitadas) existem há 11 mil anos e têm origem em Jericó. O automóvel existe apenas há cerca de cem anos. Parece-me por isso óbvio que as cidades foram construídas para as pessoas.

É aqui que está o grande desafio, devolver a cidade às pessoas, reduzindo as velocidades de circulação, na zona densa, para 30 km/h e, fora da zona densa, para 50 km/h. E conseguir efetivamente que estas velocidades sejam as que se pratiquem, não apenas com polícia e radares, mas sobretudo com pequenas obras que obrigarão os automobilistas a circular a uma menor velocidade (semáforos, gincanas, mini-rotundas, passadeiras elevadas ao nível do passeio, estreitamento das vias nos cruzamentos ou pontualmente, etc.).

Uma viagem entre o Fojo e Ferreiros (7km) demora 9 minutos se circularmos a 50 km/h. E à mesma velocidade, uma viagem do Minho Center às Sete Fontes (3 km) demora 3 minutos. A isto acresce o tempo de encontrar lugar e estacionar, mas a questão é, vale mesmo a pena aumentar a velocidade para ganhar apenas alguns segundos, colocando em risco a segurança e mesmo a vida de todos os outros?

Com uma redução efetiva das velocidades aumenta-se a segurança rodoviária, diminui-se o índice de gravidade das colisões, aumenta-se a perceção de segurança e promove-se o uso de outros modos de transporte. O que por sua vez contribui para reduzir o congestionamento e melhorar a fluidez do trânsito. Torna-se assim óbvio que a estratégia de mobilidade terá que passar pela redução de velocidades praticadas na cidade.

Um sistema de bike sharing bem instalado e integrado no sistema de transportes da cidade (pelo menos no que à bilhética diz respeito) é outra maneira de promover o uso da bicicleta. Nas cidades onde se instalaram, da forma correta, os sistemas de bike sharing, obteve-se um aumento do uso diário da bicicleta na ordem dos 2%, logo no ano de instalação.

Mas outras coisas podem também ser feitas. Ter 18 mil utilizadores implica ter lugares de estacionamento para quem utiliza a bicicleta. E se quisermos, em 2025, ter pelo menos 10 mil lugares de estacionamento implica que sejam instalados quase 5000 bicicletários. Do dia 1 de Setembro de 2016 até ao dia 31 de Dezembro de 2024 restam 2097 dias úteis, ou 299 semanas, o que implica instalar cerca de 17 bicicletários por semana, e o tempo está a contar.

Para em 2025 termos 18 mil utilizadores, temos que começar já a tomar medidas, porque esses 18 mil não surgem de um dia para o outro! #rumoaosdezoitomil

RRua_Meireles

(Artigo originalmente publicado na edição de setembro de 2016 da Revista Rua)

Mário Meireles
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Mário Meireles

Engenheiro de Mobilidade Urbana - Interfaces Físicos at TUB - Transportes Urbanos de Braga
Utilizador diário da bicicleta como meio de transporte é licenciado em Engenharia Informática, mestre em Engenharia Urbana: Cidades Sustentáveis e PhD Student na área dos transportes e mobilidade.

A sua dissertação de mestrado teve como título "Como Promover a Mobilidade Ciclável em Portugal. O caso da cidade de Braga."
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