Os portugueses gostam de bicicletas. Os bracarenses garantidamente gostam de bicicletas. Nos dias de hoje não há ginásio, fitness center ou clube que não disponha de aulas em cima de bicicletas e chamem-lhe cycling, spinning ou rpm, estas são sempre as aulas com mais afluência. E se por um lado, as bicicletas são um exercício excelente para quem quer manter-se em forma, elas (as bicicletas) têm uma outra função que os ginásios ignoram. Elas levam-nos a sítios.

Hoje escrevo-vos a partir da Inglaterra, de uma cidade pequena a sul de Londres. Na Inglaterra, como todos bem sabemos, faz frio, chove, neva, há vento e céus cinzentos durante invernos muitos mais longos que o nosso. Hoje a mínima é de 3 negativos e ainda ontem de manhã nevou. Ainda assim, esta cidade de 65mil habitantes tem 7 trilhos para bicicleta, que unem todos os cantos da cidade, desenhados para quem quer ir trabalhar de bicicleta, ir buscar os filhos à escola, ir às compras, ir até ao lago ou só passear pelos bosques que rodeiam a cidade. Hoje peguei na bicicleta e fui ao lago e não me surpreendi por não ser a única a pegar na bicicleta. Desde 2008 que a cidade investe em trilhos que ligam as zonas residênciais com as áreas de lazer, o centro da cidade e os locais de trabalho e os resultados estão à vista – um crescimento de mais de 100% no número de ciclistas a circular na cidade. Ao todo, são mais de 40km de vias cicláveis – alguns dos trilhos são magníficos, na beira do canal ou a atravessar bosques, outros são apenas práticos e seguros, com aproveitamento de passeios e com sinalização adequada.

Conseguem imaginar trilhos a ligar o centro da cidade de Braga com, por exemplo, a praia de Adaúfe, ou o Mosteiro de Tibães? A Arcada com o Estádio ou o Bom Jesus ou tão só com o Picoto? Um trilho a ligar a Universidade ao centro histórico? Trilhos seguros para os ciclistas, mas também para os automobilistas e os peões? Trilhos desenhados para todos os que gostam de fazer exercício em cima de bicicletas mas que também gostam de respirar ar puro, ar frio à vezes, trilhos para quem quer ir a sítios e não se importa de chegar ligeiramente despenteado?

Não sei qual é a taxa de ocupação das aulas de cycling por aqui, mas quase aposto que é inferior aos 80% que o meu ginásio tem nas aulas do final do dia. Afinal de contas, quem prefere ficar parado quando pode, com segurança, por as rodas a andar?


(Artigo originalmente publicado na edição de 12/03/2015 do Diário do Minho)

Helena Gomes
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