Tenho tido algumas conversas sobre acidentes rodoviários e venho notando que, estranhamente, muitas pessoas acham que a bicicleta tem um poder destrutivo semelhante ao do carro e que, desse modo, representa um perigo comparável para os outros utentes da via pública. Tendo sido eu recentemente vítima de um acidente na qualidade de ciclista, poderia argumentar que sou a prova viva do contrário. Mas, como um exemplo vale apenas o que vale, a melhor maneira de verificar se esses dois meios de transporte (automóvel e bicicleta) são mesmo equivalentes, em termos da sua perigosidade, consiste em analisar o número de acidentes entre velocípedes, peões e automóveis.
Para conseguir estes números contactei a PSP e a ANSR-Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária em busca de dados relativos a acidentes entre velocípedes e peões, velocípedes e automóveis e automóveis e peões relativos aos últimos três anos (2010,2011,2012). A ANSR respondeu hoje com estes dados:

Existe 1 ferido ligeiro em 2010 e outro em 2012 no campo velocípede-peão. Questionamos a ANSR relativamente ao local onde estes acidentes tinham ocorridos, no sentido de obter alguma informação adicional que nos permitisse melhor compreender o contexto desses acidentes. A resposta foi que estes dois acidentes se inserem nas Ações do Peão e que assim, o acidente de 2010 não tem ação definida e o de 2011 tem como ação a saída/entrada num veículo.

Houve um aumento de mortos e feridos graves em 2012, mas não parece ter havido nesse período um aumento significativo do número de acidentes envolvendo ciclistas.

Totais relativos aos 3 anos

Conseguimos ver que o que se destaca mesmo é a quantidade brutal de acidentes em que um automóvel vitima um utilizador vulnerável (peão ou ciclista).

Portanto nos últimos 3 anos em Braga não morreu ninguém atropelado por uma bicicleta e apenas existiram 2 feridos ligeiros (e estes dois acidentes estão inseridos nas ações do peão).
Em acidentes nos quais esteve envolvido o automóvel morreram, infelizmente, 8 pessoas, 62 ficaram feridas com gravidade e 336 ficaram feridas de forma ligeira.
Afinal, ao contrário da bicicleta, o carro pode ser uma arma letal, implicando por isso a necessidade de um maior cuidado e uma maior responsabilização por parte do seu condutor. Conduzir uma bicicleta também implica um certo grau de responsabilidade e algumas medidas de segurança, como usar luzes e refletores e conduzir na via de forma previsível, mas a verdade é que este continua a ser um meio de transporte muito mais seguro e bem mais amigo dos peões.

Mário Meireles
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Mário Meireles

Engenheiro de Mobilidade Urbana - Interfaces Físicos at TUB - Transportes Urbanos de Braga
Utilizador diário da bicicleta como meio de transporte é licenciado em Engenharia Informática, mestre em Engenharia Urbana: Cidades Sustentáveis e PhD Student na área dos transportes e mobilidade.

A sua dissertação de mestrado teve como título "Como Promover a Mobilidade Ciclável em Portugal. O caso da cidade de Braga."
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