Acidente bicicleta

Contaram-me que, ontem à tarde, ocorreu em Gualtar um acidente envolvendo um ciclista e um jipe.

De acordo com as informações (não confirmadas) que conseguimos apurar, a vítima terá sido um homem que seguia de bicicleta e que foi violentamente abalroado por uma viatura de todo-terreno. Aparentemente, o motorista em questão terá adormecido ao volante. O ciclista, ao que dizem, tinha um problema de saúde nas pernas, sendo que andava de muletas e usava a bicicleta para ajudar na recuperação.

Até ao momento, não sabemos se o ciclista sobreviveu nem qual o seu estado. Sabemos apenas que foi socorrido no local por uma viatura do INEM.

Não conheço as pessoas envolvidas, nem estou na posse dos detalhes do lamentável sucedido. Mas não posso deixar de tecer algumas considerações sobre os comportamentos de risco de uns e de outros, que muitas vezes resultam em acidentes como este…

1) Os pecados dos automobilistas (ou motoristas em geral)

Antes de mais, é bom lembrar que há muitos automobilistas, camionistas e motoristas de transportes públicos que são conscienciosos e cuidadosos, e que partilham a estrada com o necessário respeito. As palavras que se seguem não são para eles. Dito isto, cumpre assinalar que muito há por fazer em matéria de formação e sensibilização de condutores. Os condutores de veículos motorizados deveriam ter obrigatoriamente uma sólida formação em matéria de segurança rodoviária, porque merecem particular atenção pela simples razão de que os veículos que conduzem, pelas suas caraterísticas (peso, tamanho, velocidade, etc.), são bastante mais perigosos para peões e ciclistas.

Então e quais são alguns dos pecados dos motoristas, que colocam em risco peões e ciclistas?:

  • Circular em EXCESSO DE VELOCIDADE. Para além do cumprimento dos limites máximos de velocidade (que dentro das localidades portuguesas é de 50Km/h, caso não exista sinalização adicional), os condutores têm de assegurar-se também que a velocidade a que circulam lhes permita parar em segurança caso surja algum obstáculo. Nem todos cumprem a primeira, quanto mais a segunda parte!…
  • PERSEGUIR CICLISTAS encostando-se perigosamente à sua traseira, sem manter a necessária distância de segurança. O que acontece se o ciclista à sua frente se desequilibrar, ou tropeçar numa pedra ou num buraco?…
  • NÃO ABRANDAR a velocidade antes de começar a ultrapassar um ciclista.
  • Não deixar uma DISTÂNCIA LATERAL DE SEGURANÇA de cerca de 1,5m ao ultrapassar o ciclista. (Nota: ver aqui como deve ser feita uma ultrapassagem.)
  • NÃO RESPEITAR as regras do Código da Estrada quando encontram um sinal de STOP ou de cedência de passagem. É ERRADA a ideia de que “a bicicleta nunca tem prioridade”. Em todos os cruzamentos sinalizados, a bicicleta é considerada um veículo, pelo que tem naturalmente prioridade quando os veículos que se aproximam de outras direções encontram um sinal de cedência de passagem. Igualmente, quanto um ciclista circula numa rotunda adequadamente sinalizada, os veículos que nela entram devem ceder a passagem.
  • BUZINAR ou gritar pela janela, em vez de sinalizar atempadamente e realizar as suas manobras em segurança.

2) Os pecados dos ciclistas

Justiça seja feita, muitos ciclistas, infelizmente, ainda continuam a ter também alguns comportamentos de risco que podemos considerar graves:

  • Circular de noite sem LUZES/REFLETORES.
  • Pedalar em passeios e passadeiras, como se fossem peões (o ciclista só é considerado peão quando desce da bicicleta e a leva pela mão).
  • Desconhecer ou ignorar o Código da Estrada, sobretudo as partes que se referem às regras de PRIORIDADE e ao SENTIDO DE CIRCULAÇÃO. Em cruzamentos não sinalizados, devemos ceder a passagem e não devemos nunca circular em contramão.
  • Não respeitar os SEMÁFOROS. Um sinal vermelho significa “Pare!”, mesmo para um ciclista…
  • Não utilizar a SINALIZAÇÃO MANUAL antes de mudar de faixa ou de direção. Não podemos esperar que os outros condutores adivinhem para onde nos vamos dirigir.
  • Circular DEMASIADO PELA ESQUERDA ou em ziguezague, impedindo a ultrapassagem, quando há espaço suficiente para que esta possa ser feita em segurança.
  • Circular DEMASIADO PELA DIREITA, correndo o risco de embater nos passeios, na porta de um carro estacionado ou num buraco da estrada. Esta é, aliás, uma das maiores causas de acidentes rodoviários envolvendo ciclistas…

3) Os pecados das autarquias

Algumas vias foram pensadas apenas em função dos veículos motorizados, sem levar em conta a existência da bicicleta enquanto meio de transporte. Pior ainda, muitas cidades portuguesas não têm um “mapa ciclável”, isto é, um plano global que considere as vias por onde os utilizadores da bicicleta poderão circular em segurança para chegarem aos seus destinos. Quando há vias pensadas exclusivamente para trânsito motorizado, as autarquias têm a responsabilidade ou a obrigação (pelo menos moral) de oferecer alternativas válidas aos cidadãos que escolhem utilizar veículos mais económicos e não-poluentes nas suas deslocações diárias.

Muitas vezes, pequenos ajustes na sinalização podem fazer uma grande diferença. Por exemplo, medidas de acalmia de trânsito e a criação de vias partilhadas BUS+Bici devidamente sinalizadas como tal.

O grande pecado de muitas autarquias portuguesas é, simplesmente, ignorarem a bicicleta (e o peão?) no planeamento urbano e no momento de conceber ou alterar a sua rede viária.

4) Os pecados dos legisladores

Já ia sendo tempo de Portugal atualizar o seu Código da Estrada, para passar a oferecer uma maior proteção aos utentes da via pública que são mais vulneráveis: peões e ciclistas. Não bastam meras recomendações da Assembleia da República, é necessário elaborar leis e fazê-las cumprir.

Victor Domingos

Victor Domingos

Escritor independente. Aprendiz de poeta, de ciclista e de tantas tantas coisas mais.
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